Devaneios tolos... a me torturar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O que o espelho dos deuses refletem de você?

Conta a lenda que quando a deusa Ética resolveu descer do Olimpo, tomou forma de uma linda mulher, para impressionar a humanidade. Já por aqui, deslumbrava a todos que viam sua resplandecente figura ao longe. Porém, quanto mais a Ética se aproximava, mais as pessoas mudavam suas expressões e fugiam.Triste e desiludida, a Ética resolveu voltar para junto dos deuses, e no caminho encontrou a deusa Verdade. Percebendo a decepção da amiga, perguntou o que acontecera.
Ética explicou que apesar de ter descido em forma de uma bela mulher, todas as portas se fecharam, bem como os sorrisos. Todos se afastaram. Então a Verdade esclareceu a situação. “Cara Ética. A culpa não é sua. Nós, deuses, quando descemos para a Terra, por mais belos que estejamos em nossa forma humana, simplesmente nos tornamos espelhos de quem se aproxima de nós”.
Eu fico me perguntando qual meu reflexo no espelho dos deuses. E também me conformo em saber que o reflexo muda, conforme passam os anos. Embora a gente envelheça por fora, acredito que fiquemos mais bonitos por dentro, quando adquirimos mais sabedoria, humildade, generosidade, empatia.
Conheci muita gente que sofreu um envelhecimento precoce. Na velocidade de apenas uma conversa.
Aquele sorrisão branco, com os dentes perfeitamente alinhados. Pele lisinha. Com roupas bonitas, perfumes caros, cabelos sedosos, gestos milimetricamente delicados. Aquela pessoa que chega e chama atenção. Cuja beleza resplandece à distância.
Mas cuja pele se enruga e perde a cor. Cabelos vão caindo, quebrando, perdendo o viço. Cujas unhas escurecem e crescem retorcidas por todos os lados. Cujos dentes, ao nos aproximarmos, são escuros e corroídos. Cujo hálito deixa os locais contaminados, impregnados. Cuja voz incomoda os tímpanos. Cuja presença deixa o ambiente pesado, sombrio e triste.
Não há beleza que resista a uma alma amarga.
A uma boca que serve somente para diminuir os outros.
A uma mente doentia que inventa, aumenta ou simplesmente espalha as desgraças alheias.
A um dedo que aponta.
A um olhar que julga sem justiça.
A uma palavra maldita.
Há tempos consigo ver como é feia e triste a figura de quem fala do alheio.
Alimenta-se de pequenas e grandes tragédias.
Ri das desgraças da vida.
Aponta deslizes.
Envenena amizades.
Espalha dor.
E reproduz a maldade.
São os que fogem da ética e não se reconhecem no espelho da verdade.
São tão feios por dentro, que a escuridão que carregam escapa pela boca toda a vez que deixam jorrar de dentro de si aquilo que o coração está cheio: frustração.
Gente bonita diz coisas bonitas. Gente bonita carrega coisas bonitas do lado de dentro.
Gente bonita reflete luz.
Gente bonita não é só bonita na aparência. Gente bonita de verdade faz o mundo mais belo.
O que os espelhos da ética e da verdade refletem diante de você?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Eu estou na moda!

Bem vindos a um novo tempo.
O tempo das pessoas comuns.
Eu sou Michele. Moro numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, com 25 mil habitantes. Peso 61 quilos (depois de dois dias sem comer, sem roupa, sem ar nos pulmões e sem brincos) e devo ter 1,67 de altura.
Sofro horrores com meus cabelos, e não é uma questão de aceitá-los como são, por serem afro ou cacheados ou sei-lá-eu-o-quê. Eles são feios mesmo. F-E-I-O-S ao natural.
Tenho mil e um complexos disfarçáveis facilmente com uma maquiagem e muito embora não me considere feia, conheço pelo menos mais duzentos bilhões de pessoas mais bonitas que eu.
Trabalho feito um camelo no deserto pra ter alguns dias de oásis. Tenho uma filha linda que é minha maior riqueza, mas tem apenas três anos e energia de sobra. Coisa que me falta, após acumular três empregos diferentes para ter um salário decente. (Obrigado Deus, vida, universo pelas oportunidades de trabalho! Gratidão, gratidão, gratidão!)
Mas o que quero dizer é que quando soa a badalada das 22 horas eu já sou abóbora há pelo menos duas... quando a noite chega me sinto aquela maratonista famosa, a Gabriela Andersen, que cruzou a linha de chegada fraca, desidratada e a beira de um desmaio, toda retorcida e arrastando uma perna, na Maratona Olímpica de 1984.
Mas eu tô na moda.
Sim, finalmente eu estou na moda.
Eu vivi para estar na moda.
Compartilho minha alegria com vocês, porque nestes últimos meses diversas oportunidades de trabalho têm surgido para que eu use minha experiência de mais de 20 anos na Comunicação, para apresentar produtos locais simplesmente porque eu GOSTO e eu USO!
Tô falando de lojas, fábricas e empreendedores que usam redes sociais de pessoas normais para mostrar como roupas incríveis, acessórios maravilhosos, serviços de qualidade também deixam pessoas comuns felizes.
Sim. Uma roupa bonita te deixa feliz. Um cabelo bem tratado e obediente te deixa feliz. Um brinco incrível te deixa feliz. Uma produção de maquiagem, foto te deixa feliz.
Porque quando a gente se enfeita, se enfeita para algo bom. Uma festa, um encontro, uma celebração.
Nunca vi ninguém ir ao cabeleireiro para um velório. A não ser o defunto. Porque até esse merece se despedir da vida com dignidade e beleza.
O que quero dizer é que apesar da internet tornar tudo tão vago e tão virtual, ela está tendo um efeito colateral maravilhoso: nos aproximar das coisas boas da nossa terra.
Onde encontro aquele estilo incrível da minha vizinha, que se veste tão bem? Onde a Maria pintou o cabelo mesmo? Quem fez as mechas na Antônia?
Olha o Josué num lugar paradisíaco, como eu chego aí? Carol, quero um colar igual ao teu! Luciane, tem ainda aquela blusinha linda que eu tinha visto no face?
Gente, olha a Luisa, depois que começou a academia realmente teve resultados. Me explica como eu faço pra mudar meu estilo de vida?
Sim. Apesar de recebermos informação de grandes marcas através das Tops internacionais, apesar de invejarmos as blogueiras e suas vidas (supostamente) de cinema provando sabores e desfrutando resorts sempre vestidas pelas grandes marcas, é aqui, agora que a gente vive.
Aqui passamos nossos dias, influenciadas por pessoas reais que nos inspiram. As receitas da nossa mãe. A roupa linda que nossa amiga encontrou no brechó ou postou no grupo de vendas. O passeio revigorante às nossas cachoeiras.
A mãe do coleguinha da minha filha que me ajudou a ficar mais tranquila de deixá-la na escola. A minha maquiadora preferida, que consegue afinar meu nariz como ninguém. O meu prato do coração ( e do estômago) no restaurante da cidade. A comida japonesa, mexicana, árabe que finalmente chegou por aqui!
Você é minha referência. É você que eu vou procurar. É com você que quero conversar.
Você que tem ideias engraçadas, inteligentes, sensatas. Você que tem sempre um programa divertido pra sugerir. Um filme legal, um livro. Uma nova bebida no Primo Café.
Uma massoterapeuta incrível.
Um creminho milagroso que você usou.
Uma loja cuja vendedora é uma simpatia. Em que os preços estão lá embaixo.
Onde começou aquela mega promoção.
Por favor, pessoa real: surja na minha timeline.
Apareça, manifeste-se, some, inspire, exista!
Chega de ficarmos presos a estereótipos de idade, tamanho de manequim, tipo de cabelo ou comportamento.
Estamos na moda. Todos nós. Ditamos tendência. Somos reais.
Que a indústria da publicidade se encaixe na gente.
Estamos cansados de tentar nos encaixar no minúsculo espaço dos padrões inatingíveis.
Um beijo!

sábado, 14 de janeiro de 2017

Não entre, sem ser convidado!

Por favor, não invada a linha do tempo de uma rede social como quem entra na casa de um amigo ou conhecido e vai direto à geladeira servir-se de cerveja, azeitona e queijo picado. Não deite no sofá da timeline com o controle remoto da televisão na mão, com seus canais favoritos sendo zapeados, enquanto o dono da casa assiste perplexo o hóspede espalhado. Sinceramente, o comportamento de quem comenta suas postagens fala muito mais sobre o visitante do que sobre você.
Com exceção de perfis preconceituosos, que incitem violência, cada um é livre para postar o que quiser, quando quiser, como quiser.
Esse ambiente familiar chamado Rede Social é como a casa da gente. Portas fechadas, pequena, recatada, minimalista, limpa, cheirosa, organizada, florida. Bagunçada, enorme, portas escancaradas, sujeira pra todo lado, terra seca. Têm os acumuladores, aqueles postam tudo o que fazem e aqueles que só observam.
Os que são de esquerda, de direita, e volta no meio.
Os que sambam, os que pagodeiam, os que dançam vanerão e outros que odeiam sertanejo, funk e Wesley Safadão.
Tem eu, tem tu, tem vós, pais, mães, tios, tias e tem eles também.
Tem quem viva deitado no sofá e tem aqueles que vão pra rua.
Tem quem bata panela e tem quem afirme que é golpe.
Tem de tudo um pouco. Cada um espiando pela janela.
Agora, dar pitaco na casa do outro, limpar sua sujeira no tapete do vizinho é no mínimo muito, muito chato. Pra você, é claro.
Desde que o mundo é mundo, é preciso conviver com as diferenças. Principalmente com as diferenças de pensamento.
Manter uma certa linha de respeito, dignidade e civilidade é fundamental, até mesmo numa rede social. Não seja o chato palpiteiro em terreno alheio.
Cuide da sua casa, cultive seu jardim, regue suas rosas e cuide bem da sua vida. Reveja suas atitudes, mantenha os limites do seu espaço e respeite o espaço do outro.
Eu sou católica, mas tenho inclinações pro espiritismo, heterossexual, mas super apoio o amor em todas as formas, no mundo LGBT eu sou S. Leio horóscopo, acredito em ETs, meu livro preferido é “O Pequeno Príncipe”, apoio quem não come carne, mas ainda não evoluí suficientemente para abrir mão do churrasco. Isso não me descredencia a defender os animais. Talvez me torne um pouco hipócrita, verdade. Sou casada só na prática, não no papel. Nunca quis subir ao altar vestida de noiva. Tenho uma filha, que vai ser filha única. Não pretendo acumular bens nessa vida, me contento com minha casa e minha bagagem de viagens, que espero que sejam muitas, até o fim da jornada. Se tudo der errado, eu começo outra vez, tudo bem. Acho que sou de direita, mas já votei na esquerda e votaria de novo, se acreditasse nas boas intenções de alguém.
Sou o que sou, mas amanhã serei diferente, e por incrível que pareça, embora às vezes me sinta um pouco incomodada com coisas que considero radicalismo, convivo perfeitamente e harmonicamente com tudo aquilo e aqueles que são o oposto do que sou e do que penso.
Eles me transformam e me fazem ser o que serei amanhã: melhor que hoje.
Não lembro de ter dito uma palavra ofensiva a alguém que fosse totalmente diferente de mim ou contrário àquilo que acredito. O que não me faz melhor que outras pessoas, porque sinceramente, mentalmente já dei voadora no peito de muita gente chata. O fato de não ter dado é que faz toda a diferença nesse mundo violento.
Violento em palavras, gestos, emoções. Gente que escancara e publica todo o ódio, o destempero e o desequilíbrio possível e imaginável.
Gente que não poderia ter um perfil numa rede social, porque sinceramente, jamais teve perfil para conviver em sociedade, já que para (con)viver em sociedade, respeito é o ingrediente básico. Então, tire seus pés de cima da minha mesa, devolva-me o controle remoto da minha televisão, feche a porta da minha geladeira e só entre na minha casa se for para fazer meu dia melhor. Caso contrário, ficaria imensamente grata se você parar de me visitar.
E juro, nem vou sentir sua falta.

Amor maior que eu


Somos feitos de muitas contradições. Bondade, maldade, luz, sombras, solidariedade, egoísmo, humildade, soberba, e todas as ambiguidades que povoam a alma do ser humano. Mas tornar-se mãe, é retirar de dentro de si a melhor parte, e depositar no outro. Não à toa as mães afirmam, assim que dão a luz, que o coração bate fora do peito.
É a melhor tradução da maternidade. Todo seu amor personificado naquele pequeno ser, que até então, era parte de você. É isso.
Está sendo difícil, confesso, perceber que minha menina é um ser além de mim. Ela não sou eu, embora tenha sido. Gerada em meu ventre, alimentada de meu sangue e de meus sonhos, o melhor de mim, dentro de mim mesma.
E agora percebo que ela, não sou eu.
É difícil não ser egoísta nestas horas. Difícil admitir que com apenas três anos ela já seja um ser com personalidade, desejos, rotina e gostos independentes dos meus.
Difícil vê-la escolher suas roupas, decidir por si se quer o cabelo preso ou solto, afirmar que não gosta disso ou daquilo e expressar sua vontade diante de passeios e programações.
Vejo-a dançando suas coreografias, cantando suas musiquinhas e criando personagens imaginários em suas brincadeiras infantis.
Suas frases e conclusões próprias e as coisas que diz e que nunca antes tinha escutado no ambiente familiar. Ela já pensa por si só. E absorve informações muito além de casa.
Ela cresceu. Não é mais o bebê dependente, e eu não sou mais a mamãe canguru.
Como dói e como me alegra olhar da plateia, ou como mera coadjuvante, minha pequena menina em cena, a brilhar num papel que é só dela.
Neste dia 18 de dezembro, minha garotinha completa 3 anos. Oficialmente entra na infância. “Mãe, eu não sou mais bebê”.
Verdade Olívia. Embora eu sempre te ofereça meu colo, percebo que preciso deixá-la construir caminhos pelos próprios passos.
Vejo da maneira mais clara e realista possível que sim, somos frutos do meio onde vivemos, dos sentimentos e educação que recebemos, das oportunidades que obtemos, mas acima de tudo, viemos pra esse planetinha prontos.
Não somos marionetes. Embora sejamos seres lapidados pela vida, quando descemos a esse mundo pelo ventre de nossas mães, já somos um ser com características próprias e únicas. Uma joia rara.
Meu pequeno diamante!
Reparo no seu senso de humor, personalidade. No seu riso fácil e na sua sensibilidade incrível. Na sua pureza e inteligência. Nas suas decisões e em seus medos.
Percebo que não sou você. Fui apenas um instrumento de algo maior, uma força além de mim mesma, para trazê-la a este mundo, para cumprir sua missão.
Fui ponte. Fui meio. Você é o fim.
Uma obra de arte que já não pertence ao artista.
Todas as mães precisam controlar esse sentimento de posse em relação aos filhos. Tenho praticado isso diariamente. Tenho dividido você, meu diamante, com o mundo.
Você é livre, independente. Você é um ser individual e completo.
Mas eu já não sou. Porque foi em você que depositei o melhor de mim. Como uma doadora de órgãos, deixei meu coração bater fora do peito. E dentro dele, está a única felicidade possível para uma mãe:
A felicidade de dar asas para um filho voar e ser eterno ninho, para quando ele quiser voltar.
Não posso simplesmente dizer que te amo. Porque você é meu amor, puro e verdadeiro, que respira, sorri e vive, fora do meu peito.
Feliz aniversário, minha menina!

Eternamente jovem...

Há tempos não recebia um email com uma dose de veneno. Como o remetente não se identificou, me permito achar que realmente tinha maldade em seu conteúdo. A sugestão de pauta era “o que eu acho das coroas que namoram os novinhos e querem ter pra sempre 20 anos”.
Bom, opinião e bunda todo mundo tem, diz o ditado. Umas são melhores que as outras, obviamente.
Lá vai a minha (opinião).
Acho triste, muito triste uma mulher madura namorar um carinha mais jovem e querer ter pra sempre 20 anos. Porque ninguém tem pra sempre 20 anos, a não ser quem teve uma morte prematura e não conseguiu completar 30, 40, 50, 60...
Se eu namoro um cara mais novo e vivo presa ao comportamento e à estética de um corpo de 20 anos, certamente serei infeliz. E o amor, meus caros, não nasceu pra trazer infelicidade.
Uma mulher de 40 anos jamais vai ter uma pele de 20. Independente de quantos processos estéticos faça, do quanto se alimente bem ou de quantas horas passe na academia. Se beliscar a pele, ela já não volta automaticamente pro lugar. Ela fica lá, enrugadinha e preguiçosa, antes de voltar a ficar lisinha. O pescoço, as dobras dos cotovelos e do joelho, os pés de galinha, os cabelos brancos podem ser amenizados, disfarçados, mas jamais serão exterminados. Eles estão lá para mostrar que você viveu até os 40 anos. Oba!
Por isso tenho muita pena da prisão da juventude, muito embora às vezes ela também me segure pelo pé.
Agora se você me perguntar o que eu acho de uma mulher de 40 anos, com orgulho de ter 40 anos e que namora um cara de 20, que sabe que tem uma mulher de 40 ao seu lado e a respeita, eu vou dizer: que sorte a dele!
Porque é incrível o que o tempo faz com a alma de quem vive de bem consigo mesmo! Se o viço da pele não é o mesmo, a alma, cada vez rejuvenesce e se torna mais atraente.
Uma mulher madura sabe dar valor para o que tem valor. Sabe ser leve, divertida, segura de si, vivida, independente, inteligente. Soma à juventude , a experiência de quem já passou por essa estrada.
Eu não tenho nada contra nenhum tipo de relacionamento, desde que haja respeito. Respeito de um pelo outro, e respeito pelo que se é.
Que dó de quem vive uma metamorfose forçada toda a vez que muda de amor. Era rock, virou pop. Era sofá, virou academia. Era único, virou cópia barata para impressionar alguém.
A gente já foi assim. Só que depois dos 30, realmente não dá.
Ou soma, ou some.
As coisas ficam mais fáceis, os pontos finais mais definitivos. Menos drama, porque a vida é curta demais para “tentar ser”.
Não tento ser jovem. Sou jovem. Serei eternamente, valorizando cada um dos anos que atravessei e mantendo o espírito leve de criança, com olhos curiosos para o mundo. Rejuvenesço a cada primeira vez. Por isso, jamais deixarei de experimentar o novo. Envelhecer é deixar de se aventurar.
Quando morrer, digam que morri vivendo.
A verdade sobre o amor é simples:
Ninguém consegue amar verdadeiramente alguém que não se ama e que representa um papel no palco da vida.
Ou você é original, ou você não existe.
Um beijo! Tim-tim!

Lembranças vivas no fundo do coração

Muitas vezes a gente sai de casa com um propósito, e acaba sendo surpreendido com uma experiência que nos emociona. Saí numa tarde ensolarada, de céu de brigadeiro, rumo aos Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, conhecidos como nossa Toscana particular.
E é. Quem já teve a oportunidade de visitar essa região linda da Itália, vai se sentir de volta à terra dos imigrantes quando cruzar os Caminhos de Pedra. Claro que é uma mescla de passado e presente. De desenvolvimento e preservação histórica. Uma casa moderna faz divisa com o centenário casarão. De repente, você olha pro lado do asfalto cinza e quente e mergulha no túnel do tempo, direto pro moinho cuja roda ainda gira movida pela água límpida e cristalina do riacho. O cachorro, pastor de ovelhas, bebe um gole d´água. As roseiras estão floridas. Os parreirais começam a maturar os grãos. Vem chegando o tempo da colheita.
Tudo isso é mágico, mas muitas vezes, em um passeio, uma lembrança te pega pelo pé e te remete a momentos que realmente marcaram tua vida. Foi assim comigo.
Uma das paradas foi numa casa de massas, instalada em um complexo de casarões antigos, de madeira escura, escadinhas simpáticas e flores nos canteiros.
Dentro, todo tipo de sabores coloniais: compotas, chimias, geléias, rapaduras e biscoitos. Sim, biscoitos.
E foi aí que o túnel do tempo me devolveu à infância. Um cheiro peculiar, conhecido, íntimo.
Olhei pra cozinha e lá estava ela, cortando a massa, colocando os biscoitos na forma, e levando ao forno. O cheiro de lar, de vó, de infância, de pureza, de felicidade me imobilizou. Eu não consegui segurar e grossas lágrimas começaram a descer. Há décadas eu não via aquela cena, eu não sentia aquele cheiro!
A produção dos biscoitos se foi com ela, minha nona. As fornadas inteiras, as centenas de biscoitos cheirosos distribuídos entre filhos e netos, se foram com ela. Enterrados com seu amor, com seu sabor e com seu cheiro.
Cheiro de infância. Cheiro da casa da minha vó. Olhei ao redor pra tentar me recompor e tudo o que consegui foi me enterrar ainda mais no passado. A madeira sem tinta. A banca. O fogão de lenha. A escada para o sótão. O tanque. O forno. Os pássaros. O quintal. As dálias e rosas do jardim.
Meu Deus! Como são incríveis esses momentos em que podemos viver hoje, sentimentos de anos atrás.
Um perfume, e lá vamos nós rumo às sensações mais incríveis!
Alguém que passou por você, usando o perfume dele! E você se arrepia como se sentisse o toque da paixão, outra vez.
O cheirinho de bebê e a saudade da eterna confusão de fraldas, panos e cuidado com a criança que cresceu.
O churrasco assando na brasa te fazendo rever o pai, o avô, em frente à churrasqueira tirando uma lasquinha de carne, para ver o filho, o neto sorrir.
Os jasmineiros e os natais.
As uvas e o verão.
A chuva, a poeira que assenta e a alma lavada.
A mata úmida e o frescor da natureza.
O cheiro da nossa casa.
O perfume da comida da nossa mãe.
O biscoito do forno da nossa avó.
Nada se perde nessa vida, nessa coisa que inventamos e colocamos o nome de relógio, o dono do tempo. Ele não pode nos roubar as lembranças!
Nada passa. Tudo fica. Nada morre, tudo vive, enquanto a gente puder voltar.
Passado o déjà vu, segui meu caminho, com o coração cheio de alegria pela infância feliz, que me tornou a pessoa que sou hoje: Grata pela vida!
Obrigado meu Deus!

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Bonito, uma aventura linda!



Já contei pra vocês que tenho uma espécie de consórcio viagem. É uma prestação mensal para conhecer um lugar novo por ano. Uma prioridade que elegi para respirar, me refazer, ganhar fôlego para enfrentar mais um ano de rotina e trabalho.
Eleger prioridades requer renúncias, sempre. Porque quando você decide por algo, precisa abrir mão de outras coisas para realizar seus sonhos.
Assim, viajar não é fácil. Ainda mais em tempos de crise. Mas nem por isso é impossível.
Hoje você parcela tudo, organiza roteiro, alimentação, transporte, estadias. Chega no lugar e desfruta, sem praticamente tirar um real do bolso. Tudo já estava devidamente planejado e parcelado.
Mas neste ano foi diferente. Pela primeira vez viajei com uma criança de dois anos, o que exigiu ainda mais organização. Não vou dizer que é fácil. Remédios para todo o tipo de pereba possível. Mais conforto (o que significa mais despesas), menos riscos, mais planejamento.
Elegi Bonito, no Mato Grosso do Sul, porque desde cedo quero que minha filha entenda que nossa casa é nosso planeta. E que nossos bens são o ar, a água, o solo que produz o alimento, os animais que dividem nosso lar e merecem nosso respeito. O meio ambiente é nossa riqueza mais importante.
Embora a viagem tenha sido cansativa, a loucura dos aeroportos, conexões, transporte terrestre e um bebê que exige cuidados, só trago na bagagem as melhores lembranças.
Bonito é lindo. Mas não é o roteiro mais prático.
Isso me ensinou que a natureza precisou se esconder do homem para manter-se intacta. Assim, todos os caminhos de Bonito até os destinos ecológicos ficam distantes. Todos. Quilômetros e quilômetros de estradas de chão, caminhadas em meio às matas e sempre algum esforço físico.
Portanto, muitos dos passeios não podem ser feitos por crianças menores de cinco anos. Nós aproveitamos tudo aquilo que Olívia poderia desfrutar.
E não faltou nada: tivemos banho de rio, de cachoeira, mergulho em apneia, flutuação e visitação ao recanto ecológico onde vivem centenas de araras (uma doninha de 500 metros de diâmetro e 100 metros de profundidade, cujas paredes se transformaram num ninho de araras- quando elas cruzam o céu, você perde o fôlego e o arrepio é garantido).
Pelos caminhos de Bonito entramos em conexão com Deus. Cruzam por nós macacos sapecas, emas, seriemas, lobinhos, veados, tamanduás, araras, tucanos, periquitos e muitos, muitos pássaros.
Fazendas pantaneiras, homens e cavalos, simplicidade e respeito. Os animais permitem a aproximação, pois não se sentem ameaçados.
Os grupos de turistas são pequenos e organizados em horários. Nada é feito sem guia. A permanência nas cachoeiras é controlada, não é possível tocar em nada, destruir ou modificar a paisagem.
Na flutuação, o ponto alto do passeio,  entramos em um universo paralelo. O mundo aquático. Cavernas, peixes,vegetação fluorescente e multicor, velhos troncos abrigando muita vida.
Quem olha as fotos pensa que tudo é raso. Mas somos enganados pela cor azul da água e por sua transparência. Os rios são profundos e escondem poços e grutas. Por isso é necessário respeito e acompanhamento especializado.
A natureza abre seus braços e nos abraça. Nos sentimos parte de algo muito maior do que nós mesmos. Ampliamos nossa visão de mundo.
O povo é hospitaleiro, a comida é deliciosa. O tempero é o da vovó. Nos fogões campeiros, muitas delícias e doces irresistíveis (prepare-se para engordar!)
No retorno, nos sentimos renovados. Mais gratos. Mais felizes. Mais esperançosos.
Bonito é vida. Bonito é tudo de bom. Bonito é mesmo lindo.
Se puder, sinta você mesmo, em suas veias, em seu coração, a vida selvagem e livre pulsar... pura e corrente, como as águas dos rios Formoso, Sucuri e do Prata.

Boa viagem!