Devaneios tolos... a me torturar.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Bonito, uma aventura linda!



Já contei pra vocês que tenho uma espécie de consórcio viagem. É uma prestação mensal para conhecer um lugar novo por ano. Uma prioridade que elegi para respirar, me refazer, ganhar fôlego para enfrentar mais um ano de rotina e trabalho.
Eleger prioridades requer renúncias, sempre. Porque quando você decide por algo, precisa abrir mão de outras coisas para realizar seus sonhos.
Assim, viajar não é fácil. Ainda mais em tempos de crise. Mas nem por isso é impossível.
Hoje você parcela tudo, organiza roteiro, alimentação, transporte, estadias. Chega no lugar e desfruta, sem praticamente tirar um real do bolso. Tudo já estava devidamente planejado e parcelado.
Mas neste ano foi diferente. Pela primeira vez viajei com uma criança de dois anos, o que exigiu ainda mais organização. Não vou dizer que é fácil. Remédios para todo o tipo de pereba possível. Mais conforto (o que significa mais despesas), menos riscos, mais planejamento.
Elegi Bonito, no Mato Grosso do Sul, porque desde cedo quero que minha filha entenda que nossa casa é nosso planeta. E que nossos bens são o ar, a água, o solo que produz o alimento, os animais que dividem nosso lar e merecem nosso respeito. O meio ambiente é nossa riqueza mais importante.
Embora a viagem tenha sido cansativa, a loucura dos aeroportos, conexões, transporte terrestre e um bebê que exige cuidados, só trago na bagagem as melhores lembranças.
Bonito é lindo. Mas não é o roteiro mais prático.
Isso me ensinou que a natureza precisou se esconder do homem para manter-se intacta. Assim, todos os caminhos de Bonito até os destinos ecológicos ficam distantes. Todos. Quilômetros e quilômetros de estradas de chão, caminhadas em meio às matas e sempre algum esforço físico.
Portanto, muitos dos passeios não podem ser feitos por crianças menores de cinco anos. Nós aproveitamos tudo aquilo que Olívia poderia desfrutar.
E não faltou nada: tivemos banho de rio, de cachoeira, mergulho em apneia, flutuação e visitação ao recanto ecológico onde vivem centenas de araras (uma doninha de 500 metros de diâmetro e 100 metros de profundidade, cujas paredes se transformaram num ninho de araras- quando elas cruzam o céu, você perde o fôlego e o arrepio é garantido).
Pelos caminhos de Bonito entramos em conexão com Deus. Cruzam por nós macacos sapecas, emas, seriemas, lobinhos, veados, tamanduás, araras, tucanos, periquitos e muitos, muitos pássaros.
Fazendas pantaneiras, homens e cavalos, simplicidade e respeito. Os animais permitem a aproximação, pois não se sentem ameaçados.
Os grupos de turistas são pequenos e organizados em horários. Nada é feito sem guia. A permanência nas cachoeiras é controlada, não é possível tocar em nada, destruir ou modificar a paisagem.
Na flutuação, o ponto alto do passeio,  entramos em um universo paralelo. O mundo aquático. Cavernas, peixes,vegetação fluorescente e multicor, velhos troncos abrigando muita vida.
Quem olha as fotos pensa que tudo é raso. Mas somos enganados pela cor azul da água e por sua transparência. Os rios são profundos e escondem poços e grutas. Por isso é necessário respeito e acompanhamento especializado.
A natureza abre seus braços e nos abraça. Nos sentimos parte de algo muito maior do que nós mesmos. Ampliamos nossa visão de mundo.
O povo é hospitaleiro, a comida é deliciosa. O tempero é o da vovó. Nos fogões campeiros, muitas delícias e doces irresistíveis (prepare-se para engordar!)
No retorno, nos sentimos renovados. Mais gratos. Mais felizes. Mais esperançosos.
Bonito é vida. Bonito é tudo de bom. Bonito é mesmo lindo.
Se puder, sinta você mesmo, em suas veias, em seu coração, a vida selvagem e livre pulsar... pura e corrente, como as águas dos rios Formoso, Sucuri e do Prata.

Boa viagem!










































quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sobre o amor: o primeiro, todos os outros, e o verdadeiro...



E talvez, minha filha, a lição mais linda e a mais difícil, seja o amor. Tenho um palpite de que vocês irão se encontrar. Ele vai mostrar para você todas as suas faces, suas nuances, seus caminhos, seus atalhos e desvios.
Se pudesse, pularia todas essas fases e colocaria você, de frente pro mar do amor, numa rede, balançando num vento manso, curtindo a beleza de um por do sol.
Mas águas bravias chegarão. Tempestades. Ventos que destroem tudo, para que possamos reconstruir, nos reconstruir, fortalezas.
Já que não posso levá-la até o oásis de um amor tranquilo, quero preveni-la, do que virá.
Primeiro, e sempre: Você é linda. É única. É especial. Os outros e você mesma colocarão em dúvida essas verdades. Mas é primordial amar-se, para depois ser amado. Ame-se meu amor. Aceite-se. Nunca se compare. Você tem valor.
Você encontrará pessoas boas e pessoas más. Outras apenas imaturas (algumas que crescem logo, outras que jamais crescerão). Haverá as exibicionistas e narcisistas. Amar-se é bom, endeusar-se é perigoso.
Então, você irá se relacionar com pessoas que vão te machucar. Te expor. Farão você esperar, sem que ninguém chegue. Você, inevitavelmente será usada. Como passatempo de alguém, como segunda opção de alguém, apenas como um momento. (Sinto informar, mas é bom provável que você faça o mesmo com algumas pessoas).
É que o desamor também é professor. E todas as más experiências são válidas, desde que façam nascer em você o amor próprio: o mais importante de todos.
Sim, talvez te pisem e humilhem. Mas só o farão uma vez. Não permita que isso se incorpore à sua rotina.  Você precisará experimentar: o amor canalha, o fogo da paixão, a desilusão, o abandono, as lágrimas, a traição, o perdão, o recomeço, o fim. Você morrerá de amor mais de uma vez, para continuar vivendo.
Mas não se assuste: com isso tudo virá o riso, o brilho nos olhos, as borboletas no estômago. A sensação única e incrível de estar viva!
Ah... permita-se! Jogue-se no fogo. Transpire vida por todos os poros. Quebre regras. Liberte-se!
Existe uma entidade, quase uma presença real em nossas vidas que se chama: opinião dos outros. Não deixe que ela corte suas asas.
Ouça apenas quem realmente se importa com você. Embora, algumas vezes, a paixão possa deixá-la surda, cega e burra. Aprenda errando meu amor. E aprenda com os erros dos outros também.
Acima de tudo, antes de mais nada: respeite-se. Ouça seu corpo, seus limites, seu instinto. Não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você. Embora, sim, você vá pisar na bola. E depois odiar-se por isso. Perdoe-se. É importante.
Você até pode se submeter, alguma vez na vida. Mas não se submeta a vida toda.
Acredite, o amor salva. O amor não prende, ele liberta. Ele não condena, ele absolve. Ele não pesa, é leve. O amor não fere, ele cura.
Sim! Que os caminhos do amor não te levem a um beco sem saída. Que no fim, você encontre uma cadeira de balanço, num jardim em flor. Uma mão firme, um ombro amigo, um abraço acolhedor. Que o amor da sua vida seja casa, não abandono. Que seja cobertor, não orvalho da madrugada.
Que no final, entre erros, tropeços, acertos, romances, pequenas tragédias, grandes paixões, o amor seja a sua salvação.
Que ele pouse e faça morada no teu peito. Que ele possa criar raízes em detrimento de asas, que ele seja fecundo e frutifique. Que o amor transforme você no melhor que você pode ser.
E quando você desacreditar, lembre-se de mim. Lembre-se de nós, e tenha a certeza que o amor existe. Foi ele que te trouxe até aqui.
Te amo.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Viva Patagônia! El Calafate e Torres del Paine






Ao digitar ainda sinto o vento gelado e cortante da Patagônia soprando nos meus cabelos, e ergo os olhos para ser novamente surpreendida por uma paisagem de tirar o fôlego, depois de uma curva.

Viajar sempre foi mais que uma paixão, é uma necessidade. E entre meus destinos sempre coloquei em primeiro lugar aqueles que ninguém consegue superar, copiar ou igualar: os construídos pela mão da natureza.

O Fim do Mundo não é para qualquer um. É para quem quer se aventurar. Para quem não tem medo do desconhecido, ignora distâncias e parte para uma longa, mas inesquecível jornada.

Assim partimos nós, rumo à El Calafate, no final da América do Sul, em território argentino.

Quando abri os olhos pela manhã, dentro do avião, com o comandante anunciando o pouso, juro que pensei ter pego o voo errado e estar em uma nave da Nasa, pousando na lua.

Um território marrom sem fim, com crateras e rachaduras nos recebeu. Sem árvores. Sem verde. Sem nada.

Descemos no aeroporto internacional de El Calafate e com menos três graus de temperatura rumamos para uma linda e aconchegante cidadezinha onde cada flor e cada árvore foram plantadas pelo homem. Desde 2001, com a inauguração do aeroporto, Calafate pulou de seis para 20 mil habitantes. É acolhedora, simpática e hospitaleira, nos fazendo lembrar Gramado e Canela. Pousadas em madeira, árvores tingidas de vários tons de amarelo pelo outono, muitos cachorros simpáticos, grandes e peludos chamam a atenção.

Calafate cresce à beira do Lago Argentino, onde patos, cisnes de pescoço negro e flamingos convivem em harmonia. Nos meses mais frios, parte do lago congela, tornando-se uma pista de patinação.

A cidade é apenas um ponto de partida (ou de chegada). Dela, rumamos à Cordilheira dos Andes, rumo a Torres del Paine, no Chile, distante 315 km. A bordo de um veículo 4x4 cortamos as estepes patagônicas, atravessando estâncias de criação de ovelhas, grandes extensões de um deserto repleto de vida. O tempo todo centenas de guanacos nos acompanhavam. Vale a pena descer do veículo e caminhar com eles, fotografando enquanto eles se alimentam sem prestar muita atenção na presença do homem. Mais adiante uma raposa patagônica cruza a estrada. E lá do outro lado dois condores alçam seus voos majestosos. Sim, estamos em meio à vida selvagem e completamente livre! Como é bonito ver esses animais em seus habitats, tranquilos em suas jornadas pelas montanhas geladas.

De repente, uma turista anuncia que três pumas estão nos arredores, em suas caçadas certeiras, procurando alguma presa distraída.

Assim são os caminhos. Cheios de surpresas! Lagos de azul turquesa, montanhas cujos cumes não conseguimos sequer visualizar. Frio, neve, solidão e contemplação. A perfeita mão de Deus em forma de vida.

Fizemos 600 km entre a estepe e as cordilheiras. E voltamos a Calafate para conhecer o majestoso e único glaciar Perito Moreno.

O gigante nos leva através do tempo à última Era do Gelo. Gelo compactado de centenas de anos, se renova todos os dias no alto das montanhas. Onde o Moreno nasce, neva cerca de 300 dias por ano. A neve desce as montanhas, e de forma compacta se solidifica, formando um paredão de mais de 40 km e mais de 160 metros de altura, dos quais, cerca de 60 metros estão fora da água.

E o Perito Moreno caminha, literalmente. Todos os dias avança em torno de 2 metros, e todos os dias perde dois metros de gelo que se desprendem e caem nas águas geladas, provocando uma espécie de trovão majestoso e arrebatador. Ninguém sai do Parque Nacional de Los Glaciares sem pelo menos ouvir a montanha rugir. Nós acompanhamos vários pedaços de gelo se desprenderem durante o dia. E todos foram de tirar o fôlego.

Para fechar o passeio, a navegação. Entre icebergs chegamos a 150 metros do gigante. E olhá-lo de baixo é igualmente impactante. Impossível descrever a sensação.

Conhecer a insólita e longínqua Patagônia nos aproximou de Deus e de nós mesmos.

Assim, renovados e agradecidos, voltamos para casa.

Certos de termos presenciado, em nossa vida, um dos mais lindos espetáculos da Terra. E que possui uma plateia reduzida e privilegiada!