Devaneios tolos... a me torturar.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A vida bege...

Oi geeente!


Quando Felícia nasceu, o quarto no hospital era um confortável ambiente em tons pastel. Na porta, ao invés do sapatinho cor de rosa, a lã escolhida pela vovó era bege. Assim como era bege a camisola da mamãe, e a camisa do papai. Tudo era claro e nude, na cidadezinha de Felícia.

As pessoas eram comedidas, e a vida organizada. Felícia cresceu em um ambiente bege, com pessoas beges, sentimentos beges, brigas beges, lições de moral igualmente, beges. Por muito tempo ela acreditou que o mundo todo fosse dessa cor.

Um dia, Felícia passeava com sua bicicleta bege pelo interior da cidadezinha, quando avistou um pontinho vermelho, no meio do bege infinito e se encantou por aquela cor. Ela era quente, viva, pulsante. Transmitia sentimentos que Felícia desconhecia. Era algo inquietante, excitante, desafiador. A flor, vermelho sangue, despertou na menina a curiosidade de conhecer outras cores.

Com sua bicicleta, seguiu adiante. Atravessou a fronteira bege, percorreu campos verdes. Sentiu o perfume das violetas. Pedalou até mergulhar no azul, até se aquecer no delicioso sol amarelo, e adormecer sob o luar prateado. Como era lindo o mundo colorido. Precisava contar o que havia descoberto para todos aqueles que habitavam a cidade bege.

Ela contou primeiro para a família, que havia mais cores no mundo, e que as pessoas que pintavam sua vida com variada aquarela, não sorriam amarelo, nem se amavam em tons pastel. Mas ninguém acreditou nela. A vida bege era tudo o que conheciam.

Felícia queria provar que a real felicidade existia, que podia ser alcançada, bastava pedalar um pouco mais além. Esperou anoitecer e pegou sua bicicleta, até o lugar onde havia visto pela primeira vez, a rosa vermelha. Colheu a rosa com cuidado, levando-a consigo até a casa de seus pais.

Contente, achando que poderia provar que o mundo tinha cores, depositou a rosa ao lado do travesseiro na mãe, esperando surpreende-la no dia seguinte.

Porém, sem água, sem a terra marrom, sem o orvalho azulzinho, sem a luz prateada da lua, ou o dourado do sol, a rosa vermelha murchou, se encolheu, secou e morreu.

Na manhã seguinte, mais uma manhã bege, na cidadezinha bege, Felícia acordou, achando que tinha mudado seu mundo... Mas, encontrou o mesmo cenário de sempre.

Olhou a flor seca, que perdeu completamente a cor, e percebeu que, para uma cor nova conseguir manter-se viçosa e linda, é preciso estar viva.

Entendeu que não mudaria, infelizmente, as pessoas beges daquela cidadezinha. E que, se permitisse, eles é que lhe transformariam em alguém bege também.

Entendeu, que a culpa não era daquelas pessoas sem a alegria das cores. Elas apenas seguiam caminhos já traçados por seus antecessores, cultivavam valores que lhes foram impostos, seguiam costumes que aprenderam com seus pais, avós, bisavós, tataravôs, e antes deles, aqueles que fundaram o lugar. Entendeu, que precisava sim, ter raízes, Mas também precisava de asas.

Como não podia mudar os outros, mudou a si mesma. Pegou sua bicicleta e partiu. Foi morar no mundo colorido que a esperava, cheio de possibilidades e de sonhos. Partiu. Mas não esqueceu.

Escrevia aos pais contando suas aventuras, e mandando cartões postais dos lugares maravilhosos que estava conhecendo no mundo.

Passaram-se décadas, e um dia, a saudade a fez voltar para abraçar os seus. Os pais, já velhinhos, a esperavam... na única casinha bege, com janelas vermelhas daquela comunidade.

A mãe disse: Felícia, minha querida, eu sempre acreditei em você. Acreditei nas cores, assim, como outros acreditarão. Mas as grandes mudanças começam pequenas, senão, se transformam catástrofes. Pintei as janelas de vermelho, em sua homenagem. Sei... que com o tempo, outros me seguirão.

Talvez, não estejamos aqui para ver, mas um dia... pintarão esta cidade, com as cores do arco-íris!

Naquela noite, Felícia, pela primeira sentiu, que a cidadezinha bege, já tinha cores de esperança, e que o pôr-do-sol que se anunciava, já tinha tímidos tons de laranja.
O futuro, com certeza... seria mais colorido.

6 comentários:

  1. Gênial menina.
    Para bons entendedores meia palavra basta.

    Te cuída mas não te comporta.

    Um bj.

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  2. haha pode deixar, eu não me comporto, e os outros me cuidam!
    ;)

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  3. Me lembrou uma frase de parachoque de Caminhão:

    "Monitorado por fofoqueiros"

    Te cuída mas não te comporta menina.
    Monitorada pelo jeito vaís estar sempre.

    Um bj.

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  4. Me identifiquei muito com esse texto, Miche. Que lindo!
    Beijos

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  5. Também me senti um pouco Felícia ao escrever! Viva as Felícias! Beijo!

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  6. "Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida."

    Fabrício Carpinejar

    Te cuida mas não te comporta.

    Bj.

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