Devaneios tolos... a me torturar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Entre o silêncio e o grito




Minha cidade grita.

Não raramente, acordo de sobressalto com sirenes que cortam a avenida, berrando na madrugada.
Entre o sono e a realidade, começo a pensar se tenho algum amigo, parente, querido, na estrada.
Reporto-me a acidentes, perdas, danos.
Penso naqueles que estão com a vida por um fio, em ambulâncias, caminhões de bombeiros, presos nas ferragens, no frio asfalto da rodovia.
Penso nos que circulam pelas ruas, na calada da noite, promovendo violência. Talvez sejam por eles que as sirenes gritam.
Não durmo mais tranquila. Perdi a paz.

Minha cidade grita.

Pela manhã, nem bem o sol nasce, o barulho irritante de potentes sons, de gosto musical duvidoso, acorda crianças em seus berços. Perturba idosos. Polui o precioso e tranquilo silêncio.
São jovens, que sem saber usar o poder do sussurro, procuram provar sua masculinidade com batidas ensurdecedoras, e falta total de bom senso.

Minha cidade grita.

Grita no velório, enquanto choramos nossos mortos, e o carro de som vai passando, oferecendo produtos por R$ 1.99.
Grita na escola, enquanto as professoras se esforçam, em vão, tentando prender a atenção das crianças.
Grita em frente ao hospital, sem respeito pelos doentes.
Grita na missa, impedindo a oração.
Interrompe aquele que meditava em silêncio no banco da praça.

Minha cidade grita.
Grita nas buzinas, grita nos auto-falantes. Grita nas vozes alteradas. Meus conterrâneos querem conquistar o mundo na base do grito.
Minha cidade berra.
Adeus ao dourado silêncio de noites tranquilas. Até os pássaros estão acanhados nos amanheceres.
Talvez não haja mais galos.
Talvez não haja mais grilos.
Alguém ouviu as cigarras no último verão?
E até o sino, o barulho mais alto permitido outrora, agora anda acanhado. Badala quase que se desculpando.

A cidade grita.

As pessoas perderam o respeito pelo direito do outro ao silêncio. A poluição sonora não é punida. Porque, como disse Lispector: se há direito ao grito, então eu grito.
Porém, nessa guerra absurda de sons e vozes, o que talvez não tenhamos nos dado conta é que estamos ficando surdos.
Pode gritar!
Grita, que eu não te escuto.



Beijo, meus amores!

5 comentários:

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