Devaneios tolos... a me torturar.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Viva Patagônia! El Calafate e Torres del Paine






Ao digitar ainda sinto o vento gelado e cortante da Patagônia soprando nos meus cabelos, e ergo os olhos para ser novamente surpreendida por uma paisagem de tirar o fôlego, depois de uma curva.

Viajar sempre foi mais que uma paixão, é uma necessidade. E entre meus destinos sempre coloquei em primeiro lugar aqueles que ninguém consegue superar, copiar ou igualar: os construídos pela mão da natureza.

O Fim do Mundo não é para qualquer um. É para quem quer se aventurar. Para quem não tem medo do desconhecido, ignora distâncias e parte para uma longa, mas inesquecível jornada.

Assim partimos nós, rumo à El Calafate, no final da América do Sul, em território argentino.

Quando abri os olhos pela manhã, dentro do avião, com o comandante anunciando o pouso, juro que pensei ter pego o voo errado e estar em uma nave da Nasa, pousando na lua.

Um território marrom sem fim, com crateras e rachaduras nos recebeu. Sem árvores. Sem verde. Sem nada.

Descemos no aeroporto internacional de El Calafate e com menos três graus de temperatura rumamos para uma linda e aconchegante cidadezinha onde cada flor e cada árvore foram plantadas pelo homem. Desde 2001, com a inauguração do aeroporto, Calafate pulou de seis para 20 mil habitantes. É acolhedora, simpática e hospitaleira, nos fazendo lembrar Gramado e Canela. Pousadas em madeira, árvores tingidas de vários tons de amarelo pelo outono, muitos cachorros simpáticos, grandes e peludos chamam a atenção.

Calafate cresce à beira do Lago Argentino, onde patos, cisnes de pescoço negro e flamingos convivem em harmonia. Nos meses mais frios, parte do lago congela, tornando-se uma pista de patinação.

A cidade é apenas um ponto de partida (ou de chegada). Dela, rumamos à Cordilheira dos Andes, rumo a Torres del Paine, no Chile, distante 315 km. A bordo de um veículo 4x4 cortamos as estepes patagônicas, atravessando estâncias de criação de ovelhas, grandes extensões de um deserto repleto de vida. O tempo todo centenas de guanacos nos acompanhavam. Vale a pena descer do veículo e caminhar com eles, fotografando enquanto eles se alimentam sem prestar muita atenção na presença do homem. Mais adiante uma raposa patagônica cruza a estrada. E lá do outro lado dois condores alçam seus voos majestosos. Sim, estamos em meio à vida selvagem e completamente livre! Como é bonito ver esses animais em seus habitats, tranquilos em suas jornadas pelas montanhas geladas.

De repente, uma turista anuncia que três pumas estão nos arredores, em suas caçadas certeiras, procurando alguma presa distraída.

Assim são os caminhos. Cheios de surpresas! Lagos de azul turquesa, montanhas cujos cumes não conseguimos sequer visualizar. Frio, neve, solidão e contemplação. A perfeita mão de Deus em forma de vida.

Fizemos 600 km entre a estepe e as cordilheiras. E voltamos a Calafate para conhecer o majestoso e único glaciar Perito Moreno.

O gigante nos leva através do tempo à última Era do Gelo. Gelo compactado de centenas de anos, se renova todos os dias no alto das montanhas. Onde o Moreno nasce, neva cerca de 300 dias por ano. A neve desce as montanhas, e de forma compacta se solidifica, formando um paredão de mais de 40 km e mais de 160 metros de altura, dos quais, cerca de 60 metros estão fora da água.

E o Perito Moreno caminha, literalmente. Todos os dias avança em torno de 2 metros, e todos os dias perde dois metros de gelo que se desprendem e caem nas águas geladas, provocando uma espécie de trovão majestoso e arrebatador. Ninguém sai do Parque Nacional de Los Glaciares sem pelo menos ouvir a montanha rugir. Nós acompanhamos vários pedaços de gelo se desprenderem durante o dia. E todos foram de tirar o fôlego.

Para fechar o passeio, a navegação. Entre icebergs chegamos a 150 metros do gigante. E olhá-lo de baixo é igualmente impactante. Impossível descrever a sensação.

Conhecer a insólita e longínqua Patagônia nos aproximou de Deus e de nós mesmos.

Assim, renovados e agradecidos, voltamos para casa.

Certos de termos presenciado, em nossa vida, um dos mais lindos espetáculos da Terra. E que possui uma plateia reduzida e privilegiada!



















sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A lágrima do palhaço



Oi geeente!

Lembro do tempo da escola, quando meu pior pesadelo era ser chamada de coloninha. Eu queria ser malandra.
Nunca fui nenhum gênio da lâmpada e precisava estudar. Eu estudava.
Mas achava o máximo meus colegas não se preocuparem nas provas e depois conseguirem colar e tirar boas notas, sem esforço.
Havia e sempre haverá o grupo dos espertinhos. Aqueles que tinham lábia de sobra. Sempre curtindo o lado bom da vida. Os que comandavam o espetáculo. Havia eles. E nós, os meros mortais.
Por muito tempo sonhei em ser da turma do fundão. Queria ser popular. Esperta.
Mas nunca fui. Sempre fui estudiosa, seguidora de regras, comportada.
Quando tentei embarcar em alguma malandragem, fui pega com a boca na botija. E devidamente punida por isso. E ficava mortalmente envergonhada.
Nunca (nuncaaaaaaaaaaaaa) esqueço do tempo em que meu pai tinha um jerico. Sim, aqueles jericos barulhentos, com um motor gritante, que chegava em qualquer lugar berrando uma espécie de: tótótótótótótó.
Eu odiava aquela coisa. Me pai nunca deu importância para automóvel, e acho até que tinha uma espécie de paixão pelas fodorecas. Aquela era sua “fodoreca” preferida.
Eu morria de vergonha de chegar no colégio de jerico (eu queria ser da turma, lembram?)
Então eu ia praticamente deitada no chão, e saía me esgueirando pelas beiradas, enquanto meus irmãos serelepes saiam fazendo farra e adorando o show.
Um belo dia meu pai me passou um sermão, e pra mostrar que carro não faz ninguém melhor ou pior, me colocou em cima da carroceria e me levou pra escola. Lá fui eu, desfilando em cima do jerico como a Rainha da Festa da Uva em carro alegórico. Com o ensurdecedor tótótótótó e minha saia levantando agitada pelo vento. Um espetáculo.
Comecei a ver um pouco melhor as coisas da vida. Percebi que aparência e status não significam nada e não mostram o valor de ninguém. Que querer me destacar pelos motivos errados não me levaria a lugar nenhum. E que tudo o que é conquistado com esforço tem mais valor.
Percebi que os “coloninhos” eram aqueles que, na sua simplicidade, nos ensinavam os melhores valores de humildade, amizade, companheirismo, dedicação. Que eu não devia sonhar em ser malandra. E que deveria sentir vergonha de sermos um país de malandros. O país do jeitinho brasileiro.
Somos uma grande maioria que trabalha, paga os impostos e está sendo soterrada por uma minoria que transforma nosso país numa terra de corruptos, espertinhos cara de pau. 
Somos um povo batalhador, inteligente, dedicado, empreendedor, criativo. Uma grande massa abafada por uma minoria.
Aqueles do fundão. Que pegam atalhos. Que se dão bem através da malandragem.
Nunca senti vergonha de ser brasileira. Sempre achei engraçado sermos o povo que samba na lama de sapato branco, que ri da própria desgraça e que sempre dá um jeito pra tudo. Só que perdeu a graça.
Em todos os outros lugares, é sabido que a turma do fundão, ou toma jeito, ou leva bomba. Aqui deve ser o único local do mundo em que eles ainda se dão bem.
Chega a ser imoral essa turma sentar na melhor mesa, pedir a melhor comida, beber da melhor bebida, desfrutar do melhor da vida, e no final, deixar que a gente pague a conta. E acredite você, ou não, nós estamos pagando. E caro.
E ainda há uma boa penca de gente que, ao invés de tentar vencê-los, sonha em juntar-se a eles.
Um beijo, meus amores.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Feliz Aniversário, meu amor!




Oi geeeente!


-“Bem-vinda, estranha”. Disse eu, quando você nasceu.

Esperei que, quando você me olhasse pela primeira vez, fosse me reconhecer como sua melhor amiga, sua protetora, seu anjo da guarda, sua mãe. Mas não foi bem assim que aconteceu. Escutei seu choro, e o som de sua voz acordou em mim um novo ser humano. Tão fraco, tão temeroso, tão perdido e preocupado. Ao mesmo tempo tão forte, tão confiante, tão seguro e feliz.

Um misto de todos os sentimentos, numa explosão de alívio e amor incondicional ao ver você, meu pequeno anjo. Sua cabecinha linda, cabelinhos pretos, suas bochechinhas rosadas e seus olhos. Olhos vivos, espertos, brilhantes, questionadores. Olhos de jabuticaba.

Mas éramos duas recém-nascidas. Duas estranhas que precisavam aprender, do zero, a caminhar juntas. Mesmo amando demais você, minha criança, não houve aquela utópica sintonia entre mãe e filha. Faminta, você encontrou o caminho do meu seio, mas precisamos de muito mais tempo para encontrar outros caminhos: os do entendimento.

Seu choro me assustava. E eu tinha medo de machucá-la (tão pequena e tão frágil) no banho, na troca de fraldas, na troca de roupinhas. Impaciente, você berrava por cólicas, por mal estar, por frio ou calor, por fome talvez.

Não conseguia interpretar seus sinais e me sentia fraca, desamparada, frustrada por isso.

Mas nunca desisti de acertar. Quantas horas no colo, com os braços latejando de dor, e com pontadas nas costas, mas determinada a fazer com que você se sentisse protegida, segura. Quantas vezes nas madrugadas, implorei por seu sono, lutando contra o meu. Mas quando você fechava seus olhinhos e suspirava profundo, ficava eu acordada, velando por meu pequeno milagre, com lágrimas nos olhos.

Quanto pavor em sua primeira febre alta, na madrugada de uma quinta feira infernal, onde passei o maior medo de minha vida: medo de não conseguir proteger você.

Querida filha: foram 365 dias desde aquele 18 de dezembro de 2013, quando, às 12:40, você nasceu.

Eu, mãe, nasci também. Hoje, um ano depois, posso dizer que já estamos de pé, ambas dando os primeiros passos. Nos conhecemos, nos reconhecemos, estamos em sintonia. Já conheço os porquês do seu choro, já sei despertar seu riso, reconheço seus gostos, suas birras de menina esperta, seus carinhos de filha amorosa, seus gritinhos de satisfação ou descontentamento.

Se, apenas 365 dias depois, já nos sentimos assim, imagine daqui a 10, 20, 30 anos. Que nossa cumplicidade só aumente. Que possamos ser sempre, confidentes, parceiras, melhores amigas. Mãe e filha.
Quero que você saiba, meu pequeno anjo, que não há perfume que se compare ao seu cheirinho. Não há no mundo nada mais macio que seus cabelos, sua pele rosada e seus dedinhos fofos. Não existe som mais harmonioso que seu riso. Não existe no mundo nada mais forte que nosso amor.
Só desejo que seus dias sejam iluminados, que seu caminho seja longo, que sua vida seja repleta de alegrias, e que você tenha saúde, tenha sucesso, tenha paz e tenha a quem amar. Só peço que eu possa vê-la crescer. Que eu esteja lá no seu primeiro dia de escola. Na sua formatura. No seu casamento. No dia do nascimento do seu primeiro filho. Que eu possa vê-la crescer e se tornar uma mulher realizada e plena.

Minha pequena estranha! Sei que passamos todos os dias, de todos os anos de nossas vidas, tentando conhecer realmente as pessoas que nos são caras. Quero descobrir quem você é, e mais importante: quero contribuir para que você seja quem quiser ser.

Você é meu raio de sol. A luz dos meus olhos. O sorriso do meu rosto.

Você é meu coração. Motivo de acordar todos os dias. Pequena estranha, você é a minha vida!

Te amo do tamanho do infinito. Feliz Aniversário, minha filha.

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E pra você, eu digo sim!



Oi geeente!
Quando soou o sino da linda igrejinha de madeira na Linha Segunda Maternidade, sob uma chuva mansa, uma noiva com olhos cheios de lágrimas, de braços com seu pai caminhou rumo ao altar. Ao som de uma gaita, bem como antigamente, ela dirigiu-se àquele que a esperava, para juntos, dividirem sonhos, alegrias, dificuldades, projetos e o misterioso futuro. Confiantes, com olhos de esperança, e alicerçados no amor, o noivo e a noiva disseram sim, tendo os melhores amigos e familiares por testemunhas.
As paredes de madeira, os santos no altar, as palavras do padre, a magia do sim, a troca de alianças. Tradições de uma cerimônia que persiste por séculos, sem nunca deixar de ser emocionante.
Ao final da missa, todos, sem exceção, posicionaram-se em frente à capela para a foto oficial. Qualquer um que buscar registros antigos vai encontrar as principais celebrações eternizadas com a foto coletiva. Era assim nos casamentos e nos batizados.
As comunidades reuniam-se para rir nas celebrações, para chorar nos velórios, para pedir bênçãos em dificuldades e para agradecer diante das conquistas.
Independente de crença, de fé, de religião ou da forma como escolhemos dizer sim ao amor, é preciso que haja um ritual. Porque a nossa vida, apesar dos anos, dos meses, dos dias e das horas, é marcada por momentos.
É preciso celebrá-los e registrá-los. Seja pelo sim no altar, pela lente do fotógrafo ou pela memória do coração. Na frente de uma multidão, ou a sós, de frente um para o outro.
Quando deixamos de celebrar momentos marcantes, deixamos também de percebê-los.
Quando a noiva chegou ao altar, eu que não casei na Igreja, olhei para meu companheiro, pai da minha filha, e renovei nossa promessa de construirmos uma vida na base do amor. A mãe do noivo, talvez, sonhou alegre o dia em que embalará seu neto.
A mãe da noiva, quem sabe, precisou conter as lágrimas, porque naquele momento, teve a certeza de que a filha havia encontrado o que toda a pessoa no mundo procura:  um amor para chamar de seu.
Cada um, de alguma forma, também foi abençoado naquela igrejinha de madeira. Uns agradeceram, outros pediram, outros apenas sentiram. Mas ninguém ficou indiferente.
Seja na cerimônia budista, hindu, católica, pagã, seja da forma que for, quando alguém celebra o amor, divide bênçãos e multiplica esperanças.
Faz nascer novos sonhos. Instiga o outro a abrir novas estradas, atalhos, picadas, recomeços para amar a mesma pessoa sempre, ou buscar um novo amor.
Porque esse é o grande segredo da felicidade: amar e ser amado.
Por isso, quando os sinos tocaram, todos éramos noivos e noivas, renovando desejos de que tudo dê certo. Firmando promessas de que faremos tudo para dar certo. E confiantes de que, mesmo que nada dê certo, ainda assim, teremos um ao outro.
Um brinde ao amor. Da forma como quisermos celebrá-lo. Desde que o celebremos em cada momento de nossas vidas.
Porque sem amor, nada seríamos.

Um beijo, meus amores.

(Na foto, sob as lentes de Julian de Freitas, a beleza de um casamento à moda antiga e sempre atual, na capelinha da Linha 2ª Maternidade)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Gratidão!

Oi geeente!

Encostei a cabeça no travesseiro e agradeci. Sabe aquele dia em que nada extraordinário aconteceu, mas que foi perfeito? Minha filha dormia tranquila. Minha família estava reunida para as festas de final de ano.

Analisei o momento da minha vida e percebi que nada me faltava. O que viesse a mais, de bom, seria apenas um complemento para o essencial, que eu já possuía. Precisei de 36 anos para chegar até esse momento. E um sentimento de medo se apossou de mim. Medo de perder. Medo de algo acontecer. Medo de tudo dar errado.

Pensei: certamente não mereço todas essas bênçãos. Ainda tenho muito que aprender, muito que evoluir como ser humano, sou tão fraca e com tantos defeitos. “Deus” vai me punir de alguma forma, para me ensinar mais algumas lições.

Queridos leitores, quantas vezes pensamos assim?

Passamos metade da vida ansiosos, descontentes, insatisfeitos, achando que somos vítimas dos outros, alvo da falta de caráter das pessoas, desvalorizados, mal amados, que não recebemos as oportunidades que merecíamos. Passamos muito tempo desejando mais. Buscando uma felicidade que estava, o tempo todo, na nossa frente.

Depois, com a maturidade, percebemos que ninguém é responsável por nossa insatisfação, infelicidade, insucesso. O fator externo não é nada comparado à força interior. Passamos de coadjuvantes a atores principais em nossas vidas. Rompemos com o que não nos satisfaz. Não condicionamos nossa felicidade a terceiros. Tomamos as rédeas de nossos destinos. Fazemos acontecer.

E aí, quando tínhamos tudo para dar certo, vem a culpa.

A sociedade, as regras, a etiqueta, as convenções, os dogmas, a religião, muitos outros fatores nos fazem sentir culpados.

“Não mereço tanto”. “Não sou tão capaz”. “Há outros melhores que eu”. E aí, com essa sensação de culpa, passamos a nos boicotar.

Se a relação está ótima, passamos a desconfiar que a qualquer momento, tudo vai ruir. Não conseguimos apenas aceitar o momento, nos sentirmos amados, relaxarmos para receber amor. Cercamos o parceiro, desconfiamos, perseguimos, procuramos motivos, provas, indícios de que estamos sendo traídos, de que não somos respeitados, de que amamos mais do que somos amados. Furamos nosso barquinho do amor. Aguamos a relação. Estragamos tudo. De tanto procurarmos provas contra nós mesmos, acabamos por produzi-las.

No trabalho, se conquistamos nosso tão sonhado posto, começamos a temer perdê-lo. Ficamos com medo dos colegas. Começamos boicotar os projetos dos demais companheiros de trabalho. Nos tornamos mais defensivos, fechados, menos amistosos. Ao invés de sermos árvores frondosas e frutíferas, somos a terra seca onde nada consegue crescer ao redor.

Se estamos num momento bom da vida, passamos a temer o pior. Afinal, se melhorar estraga. Só tende a piorar.

Voltando à minha noite de agradecimento, me dei conta de que:

Se estou aqui, se tenho ao meu redor quem eu amo, se trabalho naquilo que gosto, se tenho o suficiente para desfrutar de conforto com simplicidade, se possuo inteligência, o dom que Deus me deu de me comunicar, de escrever, de ser lida, ouvida, se tenho condições de correr atrás e realizar os meus sonhos, sou MERECEDORA.

Algo de bom eu fiz por merecer. Não preciso ter medo. Preciso sim, ter gratidão. Quando vencemos a insatisfação, o medo, e por fim a culpa, estamos prontos.

Prontos para sermos gratos. Gratidão gera mais graças. O mundo conspira a favor dos gratos.

E nada, ninguém, no mundo é capaz de tirar nossa paz interior.

Sejamos gratos. Somos merecedores.

O universo diz “Amém”.

Beijo, meus amores!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Morrer bela, ou viver sentindo-se feia?

Começo a perder a fé na humanidade quando percebo que o grande projeto de vida de muitas mulheres é se tornar uma bunda. Pensem vocês que há muitos anos atrás, lá nos tempos da realeza, havia os plebeus e os nobres. As mulheres almejavam títulos como Duquesa de Devonshire, Rainha da Espanha, Princesa da Inglaterra, Condessa de Castiglione, entre outros. Com certeza ninguém queria ser Rainha da Bunda, Miss Buzanfa ou Garota Rabo Quente.

Mesmo porque, sob aqueles maravilhosos vestidos, sequer um vestígio de bunda aparecia.

O tempo passou, as roupas encolheram e o bom e velho pandeiro conquistou seu lugar ao sol no mundo das subcelebridades.

Infelizmente, hoje, centenas de milhares de lindas mulheres que jamais vão desenvolver uma tese brilhante que lhes renda um prêmio, ou vão escrever um livro famoso, ou fazer grandes descobertas científicas, encontram na bunda a única forma de conquistar fama e glória.

Por incrível que pareça, a bunda não tem mãos, mas abre as portas para o sucesso. Bundas e mais bundas são convidadas para programas televisivos, para a passarela do samba, para capas de revista, para desfiles e entrevistas. Bundas são bem remuneradas e circulam em restaurantes caros, festas badaladas e shows lotados, principalmente no pagode, no axé e no samba. Se não posso ser outra coisa, serei uma bunda.

Assim, muitas meninas buscam o inatingível a qualquer preço: colocam sua saúde em risco pela perfeição estética.

Não estou aqui dando uma de Madre Tereza e criticando a cirurgia plástica. Mesmo porque sou adepta dela. Mas os extremos começam a me assustar.

Não me lembro de alguém que tenha ido raspar o calombo do nariz e tenha morrido na mesa de cirurgia. Mas faltam dedos e mãos para contar quantos casos de morte por lipoaspirações exageradas, por procedimentos muito invasivos mal feitos, por aplicações de produtos nada seguros.

As mortes ainda são poucas perto das aberrações decorrentes destes procedimentos. Deformações e dor, muita dor.

O caso mais recente colocou os gaúchos em polvorosa. A (Vice) Miss Bunda Andressa Urach, de 27 anos, está internada, sedada e respirando com a ajuda de aparelhos no Hospital Conceição em Porto Alegre. Vítima dessa ditadura da beleza, a jovem, linda e loura, errou a mão e exagerou na dose.

Fez, há cinco anos, aplicações de hidrogel e polimetilmetacrilato nas coxas e bumbum, redesenhando seu corpo, alinhando suas curvas e aperfeiçoando suas formas. Os problemas começaram a surgir e nem mesmo a lipoaspiração dos produtos deu jeito.

Hoje, vítima de dores insuportáveis, infecção gravíssima e complicações em decorrência desses procedimentos, pode, segundo um médico da equipe que cuida da modelo, ter as pernas deformadas ou, até mesmo perder um membro, caso não seja possível reverter o quadro. Ainda assim, se sair viva dessa, Andressa tem mais é que comemorar a vida.

Todos nós torcemos para que ela se recupere. É muito triste ver uma pessoa com toda uma vida pela frente ser sacrificada, literalmente, em nome dessa cultura da ditadura da beleza.

Ela é apenas mais uma vítima. Assim como nós somos toda a vez que nos olhamos no espelho e não conseguimos nos aceitar. Toda a vez que nos submetemos a um bisturi sem a real necessidade.

Nossas meninas, nossas adolescentes estão expostas 24h a este modelo cruel de beleza. Serão, elas também, escravas deste universo? Se submeterão, assim como nossa geração, a todos os procedimentos possíveis e imagináveis? Será que vão querer pesar 50 quilos e medir 1 metro e 80? Será que se espelharão nas Angels da Victória Secret, ou nas Dançarinas do Tchan?

Sinceramente, espero que isso mude. Porque tão ruim quanto morrer em busca da beleza, é viver infeliz se achando a mais feia das criaturas.

Que mundo cruel. Vazio. E fútil.

Beijo, meus amores.