Ao digitar ainda sinto o vento gelado
e cortante da Patagônia soprando nos meus cabelos, e ergo os olhos para ser
novamente surpreendida por uma paisagem de tirar o fôlego, depois de uma curva.
Viajar sempre foi mais que uma paixão,
é uma necessidade. E entre meus destinos sempre coloquei em primeiro lugar
aqueles que ninguém consegue superar, copiar ou igualar: os construídos pela
mão da natureza.
O Fim do Mundo não é para qualquer
um. É para quem quer se aventurar. Para quem não tem medo do desconhecido,
ignora distâncias e parte para uma longa, mas inesquecível jornada.
Assim partimos nós, rumo à El
Calafate, no final da América do Sul, em território argentino.
Quando abri os olhos pela manhã,
dentro do avião, com o comandante anunciando o pouso, juro que pensei ter pego
o voo errado e estar em uma nave da Nasa, pousando na lua.
Um território marrom sem fim, com
crateras e rachaduras nos recebeu. Sem árvores. Sem verde. Sem nada.
Descemos no aeroporto internacional
de El Calafate e com menos três graus de temperatura rumamos para uma linda e
aconchegante cidadezinha onde cada flor e cada árvore foram plantadas pelo
homem. Desde 2001, com a inauguração do aeroporto, Calafate pulou de seis para
20 mil habitantes. É acolhedora, simpática e hospitaleira, nos fazendo lembrar
Gramado e Canela. Pousadas em madeira, árvores tingidas de vários tons de
amarelo pelo outono, muitos cachorros simpáticos, grandes e peludos chamam a
atenção.
Calafate cresce à beira do Lago
Argentino, onde patos, cisnes de pescoço negro e flamingos convivem em
harmonia. Nos meses mais frios, parte do lago congela, tornando-se uma pista de
patinação.
A cidade é apenas um ponto de partida
(ou de chegada). Dela, rumamos à Cordilheira dos Andes, rumo a Torres del Paine,
no Chile, distante 315 km. A bordo de um veículo 4x4 cortamos as estepes
patagônicas, atravessando estâncias de criação de ovelhas, grandes extensões de
um deserto repleto de vida. O tempo todo centenas de guanacos nos acompanhavam.
Vale a pena descer do veículo e caminhar com eles, fotografando enquanto eles
se alimentam sem prestar muita atenção na presença do homem. Mais adiante uma
raposa patagônica cruza a estrada. E lá do outro lado dois condores alçam seus
voos majestosos. Sim, estamos em meio à vida selvagem e completamente livre!
Como é bonito ver esses animais em seus habitats, tranquilos em suas jornadas
pelas montanhas geladas.
De repente, uma turista anuncia que
três pumas estão nos arredores, em suas caçadas certeiras, procurando alguma presa
distraída.
Assim são os caminhos. Cheios de
surpresas! Lagos de azul turquesa, montanhas cujos cumes não conseguimos sequer
visualizar. Frio, neve, solidão e contemplação. A perfeita mão de Deus em forma
de vida.
Fizemos 600 km entre a estepe e as cordilheiras.
E voltamos a Calafate para conhecer o majestoso e único glaciar Perito Moreno.
O gigante nos leva através do tempo à
última Era do Gelo. Gelo compactado de centenas de anos, se renova todos os
dias no alto das montanhas. Onde o Moreno nasce, neva cerca de 300 dias por
ano. A neve desce as montanhas, e de forma compacta se solidifica, formando um
paredão de mais de 40 km e mais de 160 metros de altura, dos quais, cerca de 60
metros estão fora da água.
E o Perito Moreno caminha,
literalmente. Todos os dias avança em torno de 2 metros, e todos os dias perde
dois metros de gelo que se desprendem e caem nas águas geladas, provocando uma
espécie de trovão majestoso e arrebatador. Ninguém sai do Parque Nacional de
Los Glaciares sem pelo menos ouvir a montanha rugir. Nós acompanhamos vários
pedaços de gelo se desprenderem durante o dia. E todos foram de tirar o fôlego.
Para fechar o passeio, a navegação.
Entre icebergs chegamos a 150 metros do gigante. E olhá-lo de baixo é
igualmente impactante. Impossível descrever a sensação.
Conhecer a insólita e longínqua
Patagônia nos aproximou de Deus e de nós mesmos.
Assim, renovados e agradecidos,
voltamos para casa.
Certos de termos presenciado, em
nossa vida, um dos mais lindos espetáculos da Terra. E que possui uma plateia
reduzida e privilegiada!



















