Oi geeente!
Costumo observar grandes
tragédias, de cidades pequenas.
Ninguém quer atrair para si uma
catástrofe natural, tufão ou terremoto. Tampouco um grande assalto, acidente de
trânsito, assassinato.
Mas querendo ou não, todos os
fatos que chamam a atenção de uma cidade do interior, acabam virando uma
novela, inevitavelmente acompanhada por toda a população.
O padeiro, o carteiro, o
cabeleireiro, o porteiro, o jardineiro, todo mundo se envolve.
Primeiro vem a bomba, geralmente
através da emissora da rádio local, do vizinho, do amigo, através do boca a
boca. Preocupação e medo.
Será que foi com alguém da minha
família? Será que foi com um conhecido, um amigo?
Passado o primeiro impacto e
contatados todos os familiares, a curiosidade passa a falar mais alto.
Na novela da vida real, todo mundo
quer ter um papel de destaque, ou pelo menos uma participação especial.
"Eu já previa isso".
"Vi uma movimentação
estranha".
"Testemunhei tudo, estava
varrendo a calçada na frente de casa, quando tudo aconteceu".
"Essa história não é bem
assim. Fulano, primo da fulana, me falou que viu coisas estranhas acontecerem
antes do fato".
“Estava a mais de 200 por hora,
pode apostar”.
Depois, as pessoas passam a achar
os culpados:
Cadê a polícia? Cadê os políticos?
Cadê os padres nessa hora? Onde estava a mãe, que não educou? Será que foi
culpa dos professores? Os amigos influenciaram.
Depois entram em cena os mestres
da ficção. A pessoa foi vista em dois lugares ao mesmo tempo. Ou então,
aumentam o drama, dando ares de Chuck Norris para o herói. Relatam cenas de
violência, com doses a mais de sangue e sofrimento.
Parece que quanto pior a história,
mais interesse ela gera, mais assunto ela rende.
Vira pauta na padaria, no
restaurante, no trabalho, no happy hour.
Todo mundo gosta de ter uma versão
mais elaborada, mais rica em detalhes, com novos elementos.
É preciso que o assunto renda, até
que outro tome seu lugar.
Para a maioria das pessoas, que
adoram um pano pra manga, um novelo de lã para o tricot, um exercício para a
língua, a verdade, pouco importa.
Falam, falam, falam, não respeitam
parentes, amigos, familiares, envolvidos na tragédia. Se não dói neles, que
importa a dor dos outros? Importante é ter assunto.
Quando acontece, em cidade
pequena, pequenas tragédias cotidianas, ou grandes tragédias coletivas, mas com
os outros, viramos investigadores, testemunhas, policiais, jornalistas,
advogados e juízes.
Quando algo acontece conosco, aí
nos tornamos (ou nos fazemos de) vítimas.
Beijos, meus amores.

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