Outro dia perguntaram se minha gravidez tinha sido planejada.
Eu parei para pensar e me dei conta de que foi a atitude mais arriscada da
minha vida. Ter um filho foi um mergulho no vazio, um salto da mais alta
montanha.
Você sai de casa todo o dia rezando para que nada de ruim
aconteça. Você liga a televisão e os noticiários só trazem tragédias,
catástrofes, acidentes, violência. Se o telefone toca na madrugada, você já
começa uma oração pelos seus. Crianças passam
fome no planeta onde a riqueza concentra-se na mão de poucos, e a pobreza é
dividida por milhões.
Talvez a decisão de ter um filho tenha sido a mais louca e
inconsequente da minha vida.
Mas com certeza, foi a melhor.
Sim, planejamos nossa filha, voltando nossa face somente para
o lado onde o sol nasce. Naquele lugar onde os sonhos são possíveis, onde moram
as pessoas boas, e onde a felicidade é compartilhada.
Planejamos nossa filha pensando no futuro que gostaríamos de
construir. Olhando para um amanhã, melhor que hoje, onde crianças não morrem de
fome, não são espancadas por seus próprios familiares, nem são vítimas das mais
absurdas violências.
Planejamos nossa filha para viver em um lugar onde os abraços
são apertados, a mesa é farta, o carinho não falta, a alegria é presença
constante, e a vida é longa.
Onde a grama é verde, os pássaros cantam, o balanço embala e
o futuro é uma promessa boa.
Apesar de todo o mal do mundo, assim como eu, tantas mães
nesse momento, afagam suas barrigas, sorrindo para um amanhã cheio de
esperança.
Planejar ter um filho é dar um passo no breu. Mas um passo
firme, repleto de fé e de amor. E o amor sempre aponta o melhor caminho, mesmo
que seja no escuro.

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