Devaneios tolos... a me torturar.

sábado, 3 de julho de 2010

Patinho feio...



Quando eu era pequena e estudava no Scalabrini, a gente tinha que pedir para a professora um colar, para poder ir para o banheiro. Tinha uma colega que vivia pedindo o tal colar do banheiro, e apelidaram-na de mijona.

Eu, que queria passar bem longe de qualquer apelido maldoso, bem me lembro aquele dia em que me aguentei o quanto pude, sem ir ao banheiro. Me lembro de sentir o xixi escorrendo pelas minhas pernas e molhando minha calça de lã do uniforme azul marinho. Por sorte, estava vestindo lã, e a calça absorveu todo o xixi. Fiquei lá, mijadíssima, até a hora de ir para casa. Acho que ninguém sequer percebeu.

Mesmo depois, quando adolescente, bem recordo que na minha sala tinha a paraíba masculina, a colona da roça, o bichinha, o rolha de poço, a neguinha bombril... e por aí vai.

Eu, magrela que era, com medo de ser a Olívia Palito, vivia com meia calça de lã por baixo do uniforme, para ficar com as pernas mais grossas. Colocava algodão nos peitos, porque nós, “despeitadas”, éramos chamadas de “bergamotinhas”.

São marcas que carregamos para a vida toda. E olha, que apesar de desagradável e constrangedor, esse tipo de perseguição, ainda é o menos grave. Há problemas ainda maiores: crianças que apanham dos colegas, que são obrigados a carregar cartazes colados nas costas com os dizeres “chute aqui”, e até mesmo são obrigados a pagar “pedágio”, ou seja, dar dinheiro a colegas mais velhos para poderem entrar na escola. Com o uso da internet, espalham-se fotos, vídeos e comunidades perseguindo minorias.
Hoje em dia, isso se chama Bullyng. E uma pesquisa com 382 alunos da escola Bandeirante mostrou que 25% dos entrevistados sofrem algum tipo de constrangimento.
Aí, realizam campanhas e mais campanhas, para acabar com este problema, cujo início está na raiz da humanidade. Só os mais fortes sobrevivem. É preciso se adaptar para sobreviver.
Não foi isso que você aprendeu nas teorias da evolução, na escola?

Queridos, os magrelos, os feios, os homossexuais, os gordos, os que usam óculos, os que são cdfs, os que são negros, todos sobrevivem. Mas a que preço?

Nascemos e somos criados por nossos pais para sermos iguais. Nos enquadrarmos nas regras. Coitados dos diferentes. Se você, assim como eu, faz parte destes 25% que de alguma maneira não eram o “estereotipo da beleza”, não eram chefes de torcida, nem a mais bonita da escola, muito menos o mais forte... então você sabe o quanto esse tal “bullyng” incomoda e atrapalha sua adolescência.

O quanto você se sente o patinho feio. Não sei até que ponto eu me sentir “diferente” me ajudou ou me prejudicou nos tempos da escola. Só sei que superei isso, com alguns resquícios, claro.

E sabe, o que me serve de lição? A gostosona da escola, hoje, vive escrava dos remédios para emagrecer. O que só levava vantagem às custas dos outros, colava nas provas, não fazia os trabalhos, até hoje é sustentado pelos pais, e “não descobriu o que quer da vida”. O riquinho da turma, tinha de tudo. E como não precisava lutar por nada, hoje luta pra se livrar das drogas. E assim vai.

Você não pode hoje, olhar para um adolescente mirradinho, feinho, que não se destaca, e prever o que ele vai se tornar. O casulo da borboleta ainda não permitiu a metamorfose, mas ela vai chegar.

Vocês devem ter lido nos jornais quantos casos de bullyng terminam em suicídio. Uma menina, obrigada a tirar a roupa e deixar que “colegas” da escola a tocassem e filmassem, acabou por tirar a própria vida, por vergonha e humilhação. Outra, perseguida pela filha da vizinha no site de relacionamento “My Space”, se enforcou no quarto, com um cinto. Aos 13 anos.
A grande maioria sobrevive. Mas com que sequelas?

Não sou psicóloga, psiquiatra, pedagoga, professora, mas se fosse mãe, não criaria meus filhos para serem iguais, criaria meus filhos para serem FELIZES.
Beijos meus lindos, e recebi de uma amiga, a frase da semana:

“Homem não mente para a esposa, ele apenas transforma a verdade em algo aceitável para a mulher.”

7 comentários:

  1. Perfeito o texto!

    A pouco tempo ouvi uma coisa de uma pessoa que me deixou muito chateada. Um opinão que ela tinha dela para comigo. Simplesmente a "bonitinha" me chamou de: Problemática. Nossa! Na hora foi uma porrada!
    E fiz a pergunta para ela: "Será que sou eu a problemática, fulana?" E ela sabia do que estava falando (As pessoas esquecem que tem podres e que sabemos deles!)

    Ai fiquei pensando. PROBLEMÁTICA... Todos nós temos um lado problemático na vida. Eu tenho um lado, ela tem um, o coleguinha da mesa do lado tem e etc

    Enfim, gostei desta parte do texto
    "Você não pode hoje, olhar para um adolescente mirradinho, feinho, que não se destaca, e prever o que ele vai se tornar. O casulo da borboleta ainda não permitiu a metamorfose, mas ela vai chegar. "

    Eu era feia, usava um óculos de acrílico azul (Hoje uso mais modernos e tenho alguns modelos e cores rs), cabelo horrosos!!! Meu,eu sempre amei borboletas e não sabia o por quê. E hoje eu sei... Que de uma coisa feinha, nojentinha, quando resolve no momento certo ficar no casulo.Sozinha...E quando resolve sair (tudo no tempo certo) ela sai linda! disposta a voar bem alto e pousar em lugares para que seja vista a sua belaza.....

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  2. ai que lindo isso que tu escreveu, cheguei a me arrepiar! Aí está a verdade: a transformação depende de nós! Precisamos acreditar!

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  3. Porem pode-se ver que algumas dessas pessoas que se consideravam mais e mais do que você na escola e que conseguiram se suceder bem na vida real, continuam da mesma maneira que antes, porem com os do seu convívio atual. E o que acontece é que faz um pré-conceito a respeito dos outros pelo seu visual, trabalho, o que faz fim de semana, com que carro anda... e se você for ver bem, pense naqueles seus amigos que não se vestem com roupas de marca, trabalha no comercio ou andam com um carro que pode-se dizer, não é o mais popular... pode essa pessoa ser simplesmente incrível?
    Principalmente aqui, na “cidade pequena” temos casos assim, Michele, que continuam para o resto da vida.
    Troco “Patinho Feio” por “Cabeça Pequena”... Acho que o coloninho não era aquele teu colega.

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  4. boa Pê, tem razão!

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  5. Cuidado para não cair no extremo oposto. Nem todo riquinho da escola vai se tornar drogado, nem toda gostosona vai ser obesa, nem todo patinho feio vai se tornar um cisne. Cada caso é único, e as simplificações são sempre perigosas.

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  6. Mais: não é possível isentar a escola da responsabilidade. Quanto mais repressora for a instituição, mais os alunos irão agredir-se entre si.

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  7. É verdade Dr.
    Definir é limitar.
    Não gosto de definições,projeções... não gosto de quem rotula ou cria expectativas. Penso que cada um é único. E cheio de infinitas possibilidades. Inclusive a possibilidade da transformação completa, em qualquer momento da vida.

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