Devaneios tolos... a me torturar.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Nossos filhos, nosso espelho

Muitas vezes a escrita nos permite encontros e trocas de experiência com pessoas que jamais imaginaríamos. Escrever é se expor. Você publica sua opinião, e claro, fica lá preparada para ser julgada, apoiada ou criticada. É um risco que se corre.

Depois que fiquei grávida e tive meu bebê, por muitas vezes dividi com leitores meus sentimentos como mãe. As alegrias, as dificuldades, o modo como vejo o mundo e como pretendo criar minha filha. Em um desses encontros de trocas de experiências, aprendi uma lição inesperada, que divido com vocês.

Uma leitora contou que descobriu, ainda durante a gestação, que teria uma filha especial. A menina, chamada Alice, hoje tem a idade da minha filha Olívia.

Enquanto eu fazia todos os exames de pré-natal, pensei em como reagiria se recebesse a notícia de que meu bebê tinha algum problema de saúde.

Pois foi o que aconteceu a ela. No começo, ela conta que não conseguia comer, tomar banho, abrir a janela para ver o sol. Jamais rejeitou a criança, mas chorava desesperada, por dar a luz um ser que ela considerava frágil demais, para as maldades do mundo.

Pensava se, alguma dia, sua filha seria independente, conseguiria ter uma vida normal, sem a proteção dos pais.

Passado o impacto da notícia, ela afirma que a ficha caiu. Que finalmente pode perceber que seria mãe como qualquer outra. Que todas nós estamos correndo os mesmos riscos o tempo todo. O futuro é sempre uma caixinha de surpresas. Então, decidiu ser uma fortaleza, onde sua filha encontraria segurança, e mais do que isso, onde poderia encontrar a ferramenta que a levaria a uma vida como qualquer outra criança.

A mãe de Alice visitou escolas especiais, conheceu crianças prodígio dentro de suas limitações, que superaram limites e diagnósticos. Conversou com profissionais, montou um esquema de estimulação, onde a pequenina receberia todo o apoio para desenvolver-se na parte motora, na fonoaudiologia, para poder levar uma vida como qualquer outra menina de sua idade.

Sentiu-se forte e feliz pelo desafio que a vida tinha lhe dado: seria uma super-mãe, escolhida para conduzir um ser iluminado a evoluir com segurança, afeto, compreensão e amor.

Ela conta que, a partir do momento em que deixou de ver seu bebê como alguém com deficiências, passou a sentir-se incrivelmente preparada para esta tarefa.

Foi aí que ela lançou um desafio para mim, como mãe.

Diz ela:

“Temia por minha filha. Pelas maldades do mundo. Pela forma como as pessoas a olhariam. Talvez com pena, talvez com curiosidade, ou com desprezo. Como mãe, não aguentaria ver minha filhinha sofrer. Por isso, comecei por mim. Me propus a ver minha filha como normal, e assim tem sido desde seu nascimento. É claro que ela precisa de mais estímulos, mas tem se desenvolvido e nos surpreendido a cada dia. É um ser de amor. Puro amor. E quem é assim, sensível, puro, pode ser facilmente magoado. Já reparou, Michele? As crianças estão acostumadas a conviver com amiguinhos de cabelos loiros, cabelos castanhos, lisos ou ondulados, mais baixinhos, mais altos, mais magrinhos. Elas são criadas de modo a não discriminar essas diferenças. São diferenças consideradas normais. Agora, coloque numa sala de aula uma criança com cabelinho sarará, uma bem gordinha, ou com alguma deficiência física ou mental. São essas crianças as vítimas do tão temido Bullyng. Porque essas diferenças também não são respeitadas? Porque existem crianças que são pequenos monstrinhos? Preconceituosas e maldosas? É esta a pergunta que eu faço a você, e por extensão a todas as mães, que neste momento passam pelo desafio de educar e criar um filho. Eu estou criando a Alice para ser e para se ver como uma criança perfeitamente normal.

E você, como está criando a Olívia para ver a Alice?”

Com essa pergunta fecho este texto. Permitindo que todos nós façamos um exame da consciência, para encontrar a resposta.

Beijos, meus amores.

Na foto: esse figurinha é o Vinícius. Ele ganhou um ensaio através de um concurso feito pela Special Kids Photography. (Fotógrafo Eduardo Guillon)





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