Devaneios tolos... a me torturar.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Lembranças vivas no fundo do coração

Muitas vezes a gente sai de casa com um propósito, e acaba sendo surpreendido com uma experiência que nos emociona. Saí numa tarde ensolarada, de céu de brigadeiro, rumo aos Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, conhecidos como nossa Toscana particular.
E é. Quem já teve a oportunidade de visitar essa região linda da Itália, vai se sentir de volta à terra dos imigrantes quando cruzar os Caminhos de Pedra. Claro que é uma mescla de passado e presente. De desenvolvimento e preservação histórica. Uma casa moderna faz divisa com o centenário casarão. De repente, você olha pro lado do asfalto cinza e quente e mergulha no túnel do tempo, direto pro moinho cuja roda ainda gira movida pela água límpida e cristalina do riacho. O cachorro, pastor de ovelhas, bebe um gole d´água. As roseiras estão floridas. Os parreirais começam a maturar os grãos. Vem chegando o tempo da colheita.
Tudo isso é mágico, mas muitas vezes, em um passeio, uma lembrança te pega pelo pé e te remete a momentos que realmente marcaram tua vida. Foi assim comigo.
Uma das paradas foi numa casa de massas, instalada em um complexo de casarões antigos, de madeira escura, escadinhas simpáticas e flores nos canteiros.
Dentro, todo tipo de sabores coloniais: compotas, chimias, geléias, rapaduras e biscoitos. Sim, biscoitos.
E foi aí que o túnel do tempo me devolveu à infância. Um cheiro peculiar, conhecido, íntimo.
Olhei pra cozinha e lá estava ela, cortando a massa, colocando os biscoitos na forma, e levando ao forno. O cheiro de lar, de vó, de infância, de pureza, de felicidade me imobilizou. Eu não consegui segurar e grossas lágrimas começaram a descer. Há décadas eu não via aquela cena, eu não sentia aquele cheiro!
A produção dos biscoitos se foi com ela, minha nona. As fornadas inteiras, as centenas de biscoitos cheirosos distribuídos entre filhos e netos, se foram com ela. Enterrados com seu amor, com seu sabor e com seu cheiro.
Cheiro de infância. Cheiro da casa da minha vó. Olhei ao redor pra tentar me recompor e tudo o que consegui foi me enterrar ainda mais no passado. A madeira sem tinta. A banca. O fogão de lenha. A escada para o sótão. O tanque. O forno. Os pássaros. O quintal. As dálias e rosas do jardim.
Meu Deus! Como são incríveis esses momentos em que podemos viver hoje, sentimentos de anos atrás.
Um perfume, e lá vamos nós rumo às sensações mais incríveis!
Alguém que passou por você, usando o perfume dele! E você se arrepia como se sentisse o toque da paixão, outra vez.
O cheirinho de bebê e a saudade da eterna confusão de fraldas, panos e cuidado com a criança que cresceu.
O churrasco assando na brasa te fazendo rever o pai, o avô, em frente à churrasqueira tirando uma lasquinha de carne, para ver o filho, o neto sorrir.
Os jasmineiros e os natais.
As uvas e o verão.
A chuva, a poeira que assenta e a alma lavada.
A mata úmida e o frescor da natureza.
O cheiro da nossa casa.
O perfume da comida da nossa mãe.
O biscoito do forno da nossa avó.
Nada se perde nessa vida, nessa coisa que inventamos e colocamos o nome de relógio, o dono do tempo. Ele não pode nos roubar as lembranças!
Nada passa. Tudo fica. Nada morre, tudo vive, enquanto a gente puder voltar.
Passado o déjà vu, segui meu caminho, com o coração cheio de alegria pela infância feliz, que me tornou a pessoa que sou hoje: Grata pela vida!
Obrigado meu Deus!

Um comentário:

  1. Traição

    Ivone Boechat

    Hoje,
    que as memórias se esvaem,
    e os amigos fogem de mim,
    só tenho minhas poesias
    como amigas
    confidentes,
    mesmo assim,
    impertinentes,
    sem rima e vazias
    não inspiram a menor confiança:
    elas também me traem.

    Publicado no meu livro AMANHECER 3ª.Ed Reproarte -RJ 2004

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