Oi geeente!
Lembro do tempo da escola, quando meu pior pesadelo era ser
chamada de coloninha. Eu queria ser malandra.
Nunca fui nenhum gênio da lâmpada e precisava estudar. Eu
estudava.
Mas achava o máximo meus colegas não se preocuparem nas
provas e depois conseguirem colar e tirar boas notas, sem esforço.
Havia e sempre haverá o grupo dos espertinhos. Aqueles que
tinham lábia de sobra. Sempre curtindo o lado bom da vida. Os que comandavam o
espetáculo. Havia eles. E nós, os meros mortais.
Por muito tempo sonhei em ser da turma do fundão. Queria ser
popular. Esperta.
Mas nunca fui. Sempre fui estudiosa, seguidora de regras,
comportada.
Quando tentei embarcar em alguma malandragem, fui pega com a
boca na botija. E devidamente punida por isso. E ficava mortalmente
envergonhada.
Nunca (nuncaaaaaaaaaaaaa) esqueço do tempo em que meu pai
tinha um jerico. Sim, aqueles jericos barulhentos, com um motor gritante, que
chegava em qualquer lugar berrando uma espécie de: tótótótótótótó.
Eu odiava aquela coisa. Me pai nunca deu importância para
automóvel, e acho até que tinha uma espécie de paixão pelas fodorecas. Aquela
era sua “fodoreca” preferida.
Eu morria de vergonha de chegar no colégio de jerico (eu
queria ser da turma, lembram?)
Então eu ia praticamente deitada no chão, e saía me
esgueirando pelas beiradas, enquanto meus irmãos serelepes saiam fazendo farra
e adorando o show.
Um belo dia meu pai me passou um sermão, e pra mostrar que
carro não faz ninguém melhor ou pior, me colocou em cima da carroceria e me levou
pra escola. Lá fui eu, desfilando em cima do jerico como a Rainha da Festa da
Uva em carro alegórico. Com o ensurdecedor tótótótótó e minha saia levantando
agitada pelo vento. Um espetáculo.
Comecei a ver um pouco melhor as coisas da vida. Percebi que
aparência e status não significam nada e não mostram o valor de ninguém. Que
querer me destacar pelos motivos errados não me levaria a lugar nenhum. E que
tudo o que é conquistado com esforço tem mais valor.
Percebi que os “coloninhos” eram aqueles que, na sua
simplicidade, nos ensinavam os melhores valores de humildade, amizade,
companheirismo, dedicação. Que eu não devia sonhar em ser malandra. E que deveria
sentir vergonha de sermos um país de malandros. O país do jeitinho brasileiro.
Somos uma grande maioria que trabalha, paga os impostos e
está sendo soterrada por uma minoria que transforma nosso país numa terra de
corruptos, espertinhos cara de pau.
Somos um povo batalhador, inteligente, dedicado,
empreendedor, criativo. Uma grande massa abafada por uma minoria.
Aqueles do fundão. Que pegam atalhos. Que se dão bem através
da malandragem.
Nunca senti vergonha de ser brasileira. Sempre achei
engraçado sermos o povo que samba na lama de sapato branco, que ri da própria
desgraça e que sempre dá um jeito pra tudo. Só que perdeu a graça.
Em todos os outros lugares, é sabido que a turma do fundão,
ou toma jeito, ou leva bomba. Aqui deve ser o único local do mundo em que eles
ainda se dão bem.
Chega a ser imoral essa turma sentar na melhor mesa, pedir a
melhor comida, beber da melhor bebida, desfrutar do melhor da vida, e no final,
deixar que a gente pague a conta. E acredite você, ou não, nós estamos pagando.
E caro.
E ainda há uma boa penca de gente que, ao invés de tentar
vencê-los, sonha em juntar-se a eles.
Um beijo, meus amores.






