Devaneios tolos... a me torturar.

sábado, 21 de março de 2009


E aí...
O que vai ficar no retrato?


As festas de final de ano passaram, e com certeza você deve ter tirado pelo menos um retrato da família reunida, dos amigos, da turma, da alegria. Depois da popularização da máquina digital, acho que passamos a viver 24 horas sob flashes e lentes. Se você fez, viu, conheceu... mas não registrou... parece que não viveu. Estamos presos a uma foto.

Mas será que a foto realmente retrata o que somos, o que sentimos e QUEM somos? Claro que não...
Falo sobre isso porque me parece que cada vez mais, a imagem é o que importa. E não a verdade do que você viveu... Apesar da tecnologia, penso que ainda hoje, a LEMBRANÇA é o melhor retrato. Li uma coluna da Martha Medeiros que falava sobre isso. E ela disse que a última viagem para a Europa que fez, não levou sequer máquina fotográfica ou celular. E que para muita gente, o fato de não ter registrado a viagem correspondia a não ter viajado.

Será que estamos tão dependentes assim? Talvez mais do que estejamos nos dando conta.
Encontrei outro dia uma moça da cidade choramingando no banheiro da PSY. Certamente uma desilusão amorosa... Ora pois, quem nunca se sentiu uma caca e não teve vontade de pular no vaso do banheiro da boate e puxar a descarga?

Pois bem... eu já... várias vezes, por vários motivos. Mas o que me causou estranheza foi acessar o Orkut da moça e ver no álbum dela:

Final de semana MARAAAAA, muita festa, só alegria... E nas fotos, ela fazendo caras e bocas para a lente da câmera.

E tem outros exageros... aquelas fotos caseiras horríveis de meninas e meninos semi nus na frente dos espelhos arrebitando a bunda e inflando os músculos, como se fossem a Carla Perez das colônias e o Silvester Stallone nos tempos áureos do Rambo!

E aquelas fotos de banheiro... em que a pessoa de pano de fundo fotografa o vaso sanitário, com o detalhe de ter esquecido de puxar a água e aparece aquele “charuto” boiando... écaaaaaaaaaa!

E você, olhando desinteressadamente as presenças naquela festa e pega seu namorado agarrado a uma baranga no fundo da foto em que outras pessoas posaram? Nem aprontar sossegado você pode mais... cada chifre é um flash!

E o pior: muita gente apaixonada se submete a vídeos caseiros e fotos de Adão e Eva, e lá pelas tantas veem aquelas imagens super pessoais vazarem pela Internet causando muita dor de cabeça... e fofoca, óbvio.
Exageros da época digital...

Isso não é uma crítica... porque eu mesma com uma máquina na mão represento um perigo! Devo ter mil fotos dos meus cachorrinhos, mais novecentas mil de amigos, passeios e viagens.

Mas não quero que nos tornemos escravos de nossa imagem. Que não possamos deixar transparecer que a festa foi horrível, que estamos sofrendo porque levamos um pontapé na bunda, que a viagem foi uma porcaria... que a vida não é TÃO linda quanto pintamos no retrato.

Não vamos nos prender à imagem. Você já viu uma foto da Madonna sentada no vaso em um momento de diarréia crônica?

Claro que não... não ia ficar bem na foto. Cito esse exemplo, porque às vezes pensamos que a vida do outro é só festa e alegria. Que tudo são flores. Mas não é bem assim não. As aparências enganam.

Guaporé é uma cidade onde boa parte das pessoas que conheço vive de aparência. Eu também confesso que às vezes finjo...

Sabe gente, estava lendo o livro do psicanalista Irvin Yalom, “A Cura de Schopenhauer”, e lá ele explica que todos nós temos “pontos cegos”. São defeitos que possuímos, mas que não percebemos. Os outros conseguem ver, e às vezes nos alertam e nós nos sentimos magoados.
Achamos que estão nos criticando. Mas se formos a fundo, perceberemos que são verdades. Egoísmo, egocentrismo, exibicionismo... são defeitos comuns hoje em dia, que às vezes tomamos por atitudes normais e nem percebemos...

Se você observar bem... talvez nossos retratos nos mostrem o que nossos olhos não conseguem ver.

Então, que em 2009, possamos ser mais verdadeiros. Que tenhamos coragem de mostrar todos os ângulos de nós mesmos. Que possamos assumir que nem tudo é perfeito e que possamos apenas buscar a melhor imagem das experiências que tivermos.

Que possamos estar sob flashes e holofotes, mas que a melhor fotografia seja a lembrança dos nossos melhores momentos!

“O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio." Machado de Assis

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